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DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM EM CRIANÇAS COM SÍNDROME DE DOWN

Dando início aos posts de especialistas, esta é a primeira das muitas colaborações que serão publicadas no site do Jecripe.
A seguir, estão informações sobre a linguagem e funções cognitivas, escritas pela Fonoaudióloga Silvia Brandão.
Aproveitem!

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A linguagem e as funções cognitivas

 

  • Uma vez  que a criança inicia o domínio  da linguagem, começa a pensar em termos de palavras, pode raciocinar, relembrar e fazer cálculos com palavras, tanto em voz  alta como silenciosamente
  • A memória de curto prazo é baseada em fala silenciosa e se desenvolve à medida que a linguagem se desenvolve
  • O armazenamento e as lembranças da memória de longo prazo são também dependentes da organização da informação com base nos significados convertidos pela linguagem (agrupar ítens em classes, por exemplo)
  • É esperado que as crianças com Síndrome de Down demonstrem atraso cognitivo (lentas em adquirir consciência do mundo, raciocínio e lembrar fatos)
  • Este atraso cognitivo pode ser, em parte, conseqüência das dificuldades de aprendizagem da linguagem
  • Qualquer atraso sério de linguagem resulta em aumento do atraso cognitivo pois a linguagem é uma importante ferramenta para aquisição de conhecimento, entendimento, raciocínio e memória 

 

Conclusão:

Quanto  mais pudermos fazer para superar as dificuldades da criança para aprender linguagem e  fala, melhor equipada ela estará para aprender e desenvolver suas habilidades cognitivas.

 

Aprendendo a falar

A mais poderosa forma de aprender a falar é construir no bebê a experiência da comunicação no seu primeiro ano de vida, de diversas maneiras:

  • Aprendem a controlar o comportamento dos pais sorrindo e chorando
  • Aprendem a conhecer o humor das pessoas pelas pistas fornecidas através do tom de voz, expressão facial e desenvolvimento emocional
  • Quando os bebês começam a sorrir, os pais começam uma interação, com eles, similar à conversação, esperando para que ele sorria ou balbucie depois de cada uma de suas ações
  • Estas ações são uma fonte de prazer para ambos os parceiros e fortificam as ligações emocionais entre eles
  • Se o adulto dedica tempo para estas conversas de bebê, estas serão as primeiras experiências de conversa prazeirosa e ele  começa a entender que ter condições de comunicação é divertido e vale à  pena ter habilidades nesta atividade
  • Os bebês também aprendem a olhar, ouvir e trocar de papéis na conversação (habilidades essenciais para efetiva comunicação falada)

Bebês com síndrome de Down, apesar de apresentarem um pequeno atraso para iniciar a sorrir e estabelecer estas conversações, são tão interessados nelas e dedicam a mesma quantidade de tempo a esta atividade do que as outras crianças, no meio de seu primeiro ano de vida. Eles também continuam por mais tempo interessadas nas pessoas enquanto  que as outras crianças voltam mais a sua atenção para o mundo visual. Apesar disto, eles apresentam mais dificuldade em estabelecer contato visual para atrair  a atenção do adulto às suas atividades, diminuindo a comunicação com a mãe, que acaba, sem querer, oferecendo menor  quantidade de momentos comunicativos a  esta criança. Isto poderá ter um efeito negativo nas oportunidades de aprendizagem de linguagem.

Existe uma larga faixa de variabilidade no desenvolvimento da linguagem nas crianças com síndrome de Down.

Quando os bebês realizam o necessário contato visual e captam a atenção do adulto, este tende a falar e descrever o que estão fazendo ou pensando. Assim, a habilidade do bebê de estabelecer contato visual pode influenciar a quantidade de oportunidades de aprendizagem de linguagem por eles vividas.

Estudos tem demonstrado que os bebês com Síndrome de Down nem sempre desenvolvem a habilidade de esperar e dar tempo para o adulto responder. Eles tendem a não deixar as pausas previsíveis no seu balbucio e vocalizações, dificultando, para sua mãe, contribuir na conversação. Este também pode ser um efeito negativo na aprendizagem da linguagem.

O CÓDIGO DA LÍNGUA

Se a criança necessita aprender a falar, então precisa “decifrar o código” da língua.

Se imagine num país estrangeiro numa família que não fale a sua língua. Pense em como você iria iniciar a “pescar” a língua estrangeira. Certamente você iria aprender alguns substantivos e verbos para objetos da vida diária, pessoas e ações. Seus hospedeiros provavelmente iriam ajudar, segurando os objetos, dando o seu nome, apontando e gesticulando. Você iria aprender olhando e tentando adivinhar o conteúdo provável das suas comunicações, no contexto que elas estão acontecendo. Por exemplo, na mesa, você ouviria um pedido e veria a ação consequente, quando alguém alcançasse o sal para a pessoa que o requisitou. Palavras sociais como “bom dia”, “alô”, “desculpe”, etc. não são muito difíceis de pegar e antes que você imaginasse, estaria fazendo tentativas de ser entendido, juntando as palavras-chave que você já dominasse. Porém você levaria mais tempo para aprender a gramática e a sintaxe desta nova língua.

O bebê ao aprender a falar, enfrenta tarefas parecidas com as exemplificadas acima e segue mais ou menos as mesmas etapas nesta ordem.

DUAS PALAVRAS JUNTAS

Uma vez que a criança adquiriu um vocabulário de mais ou menos 50 palavras, ela começa a utilizar duas palavras-frase (duas palavras juntas significando uma frase).

As crianças com Síndrome de Down, embora usem o mesmo sistema de construção de duas palavras, tendem a iniciar esta utilização quando dominam um número maior de palavras isoladas (em torno de 100). Elas também tendem a apresentar um vocabulário maior que as outras crianças quando começam a utilizar frases com mais palavras. Mostram mais dificuldades em “pegar” as regras gramaticais e sintáticas.(Miller, 1998)

GRAMÁTICA E SINTAXE

Estudos atuais tem demonstrado que a dificuldade de entender as regras gramaticais e de sintaxe não tem um teto de desenvolvimento lingüístico imposto pelas condições genéticas, apesar de se estenderem pela adolescência. Pesquisadores observaram contínuo desenvolvimento até os 20 anos de idade, com uso de sentenças complexas contendo mais de uma oração. Chapman conclui que terapia de linguagem deve continuar na adolescência e deve ser focalizada no uso da gramática e de sentenças com estruturas complexas.

MEMÓRIA DE TRABALHO

Recentes estudos afirmam que é possível entender as dificuldades gramaticais das crianças com Síndrome de Down pela baixo desenvolvimento de sua memória fonológica de trabalho. Para que a criança aprenda estas regras, necessita ouvir o seu uso na linguagem adulta e “segurar” sentenças de 6 ou mais palavras na memória de trabalho, enquanto o seu significado é processado.

Trabalhar nesta área pode ser uma importante contribuição para o desenvolvimento da linguagem nestas  crianças.

INTELIGIBILIDADE

Enquanto alguns estudos referem pobre inteligibilidade de muitas crianças e adultos com Síndrome de Down, a maioria deles conclui que os padrões de balbucio são normais mas a maioria dos padrões articulatórios e fonológicos são imaturos.

Todas as habilidades motoras requerem prática para melhorar. Talvez uma das causas relevantes desta imaturidade seja a falta de prática deste exercício na fala. Estas crianças usualmente começam a falar mais tarde que as outras crianças e, quando começam, não falam muito. Suspeita-se que as crianças com Síndrome de Down pratiquem a fala, por dia, menos da metade do tempo do que as outras crianças. Apesar dos problemas motores de fala serem complexos, treinamento ajuda a produzir clareza de produção.

A baixa inteligibilidade da fala da criança leva a distorções na conversa mesmo na infância. Os adultos, então, tem a tendência de perguntar questões fáceis e curtas, prontamente preencher a frase para ela e rapidamente auxiliar, impedindo que a criança aprenda a falar melhor. É importante que o adulto esteja atento no sentido de não tolher a criança desde o período das duas palavras-chave para que elas sejam capazes de gerar sentenças mais complexas, mesmo que o significado da comunicação esteja entendido anteriormente. Estas atitudes contribuem para que as dificuldades gramaticais da criança sejam diminuídas.

SENSIBILIDADE SOCIAL

As crianças com Síndrome de Down são interessadas na comunicação. Suas habilidades sociais e comportamentais são de acordo com  a sua idade de desenvolvimento, a medida que entendem as pessoas e o que elas estão pensando ou sentindo. Seguidamente os pais comentam sobre a sua empatia  e sensibilidade social. Entretanto, quando ficam mais velhos, a experiência de não serem entendidos podem prejudicá-los nas situações sociais. Muitos adolescentes apresentam isolamento social por falta de vocabulário adequado e habilidades de fazer amigos. Esta situação pode levar à criação de amigos imaginários que permanecem mesmo na adolescência e na vida adulta.

CONCLUSÕES PRINCIPAIS

  • Deficiência auditiva, defeitos visuais e dificuldades motoras atrasam significativamente o progresso da criança desde a infância
  • A habilidade dos bebês com Síndrome de Down para aprender a falar pode ser afetada no seu primeiro ano de vida pela tendência de ter habilidades comunicativas menos desenvolvidas   e menor eficiência de estabelecer situações de aprendizagem de linguagem com os adultos. Isto significa menos experiência e menos oportunidades para começar a entender o vocabulário
  • Apesar das crianças com Síndrome de Down aprenderem o significado das palavras do mesmo modo que as outras crianças, elas aprendem novas palavras e expandem seu vocabulário mais lentamente.
  • A intervenção reduz as diferenças de aquisição léxica
  • As crianças com Síndrome de Down tem mais dificuldades de gramática e sintaxe do que na aquisição do léxico
  • A compreensão de vocabulário, gramática e sintaxe é, usualmente, maior do que as habilidades produtivas sugerem
  • A maioria destas crianças tem dificuldades de falar claramente, mostrando dificuldades fonológicas e articulatórias

IMPLICAÇÕES PARA INTERVENÇÃO

Cuidados físicos:

É essencial que a criança que a criança receba atendimento físico e fisioterapia para manter o progresso motor perto da normalidade. Ao contrário, não  terá condições de manipular objetos e explorar. Isto, a levará a atrasos cognitivos e de linguagem.

Qualquer deficiência sensorial necessita ser identificada e efetivamente tratada o mais cedo possível. O significado destas dificuldades, particularmente da perda auditiva, são, ainda, subestimados na maioria das pesquisas científicas.

Sensibilidade:

No primeiro ano de vida é necessário chamar a atenção dos pais para a importância das conversações e encorajá-los a captar as pistas do bebê sem o sobrecarregarem demais com estimulação física e verbal, permitindo que ele responda e participe. O brinquedo tem um importante valor para encorajar a exploração e aumentar as oportunidades de aprendizagem de linguagem. É importante falar sobre o que o bebê está olhando ou fazendo, dando a oportunidade  para que ele lidere a interação.

Os adultos necessitam continuar a serem sensíveis aos esforços da criança para se comunicar através de toda a infância, para encorajá-la a continuar tentando realizar tarefas que parecem difíceis.

Os adultos devem estar conscientes do seu modo de interagir com a criança para expandir suas comunicações em seqüências lógicas e tentar não fazer perguntas fechadas (cuja resposta pode ser “sim” ou “não”).Se a criança pode ser entendida com uma mistura de palavras simples e sinais, não haverá motivação para aprender a falar em sentenças maiores.

Linguagem de sinais:

A sinalização ajuda a reduzir os efeitos negativos do atraso de produção e compreensão não só das crianças que possuem deficiência auditiva. Entretanto, é importante encorajar as crianças a produzirem todos os sons possíveis e praticar as habilidades motoras orais. Isto pode ser feito através de jogos de sons e versos com rimas.

O estabelecimento de bons hábitos alimentares, de mastigação e respiração nasal melhoram a qualidade de voz e inteligibilidade da fala.

Linguagem escrita:

O uso do sistema de linguagem escrita produz uma variedade de benefícios: símbolos e palavras podem ser usados para aumentar a prática de produção falada e auxiliam a compensar os problemas de memória auditiva mesmo nos primeiros estágios de aprendizagem de leitura. Também auxiliam a aumentar o tamanho das palavras articuladas e melhoram a habilidade de produção espontânea de sentenças inteligíveis. A escrita é uma ferramenta muito poderosa para ensinar linguagem e produzir sentenças gramática e sintaticamente corretas.

A LINGUAGEM NECESSITA SER ENSINADA

As crianças serão beneficiadas pela aprendizagem da linguagem desde o nascimento. Os pais são os mais efetivos professores de linguagem para as suas crianças. Eles devem ser encorajados a fazer isto para conscientemente expandir o léxico da criança e, mais tarde, a gramática e a sintaxe. A aprendizagem da linguagem deve continuar através da adolescência, se for necessário. As crianças que recebem intervenção precoce, desde o nascimento, incluindo leitura e escrita nos anos seguintes, podem não necessitar intervenção contínua na adolescência.

Texto traduzido e adaptado da publicação “ The Down Syndrome Educacional Trust”- Language development in children with Down Syndrome: Reasons for optimism. (02/98)

Fonoaudióloga Sílvia Brandão 

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